Arquivo Cafeína

Sobre o Cafeína

Eduardo Morais — 07.09.2011

Definir o Cafeína é uma tarefa difícil. Resumindo, direi que o Cafeína foi um blogue que nasceu em 2000, fechou em 2005, reabriu em 2008 mas, tendo a coisa corrido mal, fechou uns meses depois. À segunda vez nada é igual. Do ponto de vista da maioria dos leitores, esta será uma definição correcta e suficiente. Da minha perspectiva, contudo, o Cafeína foi mais que um mero blogue. Não só mais do que o meu blogue, mas mais do que o nosso blogue.

O Cafeína foi um site na encruzilhada entre a fanzine e o weblog (o aportuguesamento 'blogue', aliás, ainda hoje me arrepia tanto com um fraco aperto de mão). Foi assim uma coisa um pouco vaga, definida em função daquilo a que aspirava mais-ou-menos ser, e em função daquilo com que jamais queria ser confundida. Isto levou à formação de um determinado estilo e ao assumir desde o início de que existiria um processo editorial - o qual, tratando-se de um blogue colectivo, seria a raíz de toda uma série de chatices. Não consigo também encontrar uma definição precisa para esse estilo - humorístico no seu melhor, mas habitualmente arrogante, estúpido em várias formas, 'idiota' e ofensivo. Entre as centenas de artigos publicados, detectam-se uma predisposição para devaneios com ou sem nexo, tendências para a teoria conspiratória, posts incendiários quando as coisas andavam com poucos comentários e apelos pouco sinceros à razão e às tréguas. As únicas proibições editoriais eram as atitudes, como por exemplo a escrita de private jokes acerca dos outros 'membros do staff', que esquecessem que o site era lido por estranhos (cerca de três mil visitantes regulares na melhor altura).

Com o decorrer do tempo, e à medida que se multiplicaram espaços como o Blogger e o Wordpress, o Cafeína foi perdendo a sua pertinência. Hoje em dia, disputando o espaço discursivo com as redes sociais e outras plataformas de publicação, um blogue médio funciona semanas a fio com zero comentários e aquilo que se deseja são partilhas e 'likes'. Em 2008, já se reconhecia isto, e a tentativa de ressuscitar o Cafeína foi mal avisada: deu num Cafeína versão zombie. Talvez as coisas tivessem sido diferentes se, anos antes, tivesse decidido que o o site devia ser famoso. Mas, no meio de tanta idiotice e estupidez, decidi exactamente o contrário - o Cafeína nunca teria publicidade nem se publicitaria - tendo inclusivamente mordido a comunicação social com ingratidão das poucas ocasiões em que tentaram fazer-nos um favor. Tendo em conta o número de visitantes, talvez pudesse ter feito uns cobres com uns anúncios, mas nunca achei que devesse impingir publicidade aos leitores a troco de uns modestos cheques mensais (que talvez servissem para, na melhor das hipóteses, pagar o crédito de um televisor).

Anos volvidos, este site manter-se-à como arquivo. Gosto de alugar o domínio cafeina.org e tenciono ir pagando as contas. Como é natural na evolução de qualquer grupo de amigos ao longo de mais de uma década, entre as pessoas que também escreviam no Cafeína hoje encontro pessoas que ainda são minhas grandes amigas, pessoas com quem talvez vá trocando uns 'likes', e pessoas que não posso ver à minha frente. Apesar de ainda ter tudo bem guardado, é a pedido de algumas destas pessoas que o arquivo que aqui apresento não contém os seus artigos, o que me entristece mas é aqui respeitado. Tendo em conta o seu grau médio de infelicidade, optei também por não publicar os comentários aos artigos neste arquivo. Nós agora temos (ou ambicionamos ter) empregos, conjugues e/ou novos amigos. Já existe informação danosa mais que suficiente nos artigos aqui arquivados.

Cafeína   © E. Morais, amigos e demais autores 2000-2017