20.08.2008

Eduardo Morais

#16 · Com. ?

Relíquias

O outro dia, através de um qualquer feed que costumo ler, descobri uma coisa muito útil chamada Reverse IP Domain Check. O que esta coisa faz é dizer que outros sites estão alojados no mesmo servidor que um certo e determinado site. Por exemplo, tenho o cafeina.org, o asseptic.org e o eduardomorais.com alojados no mesmo sítio - ficheiros HTML, imagens e pequenos programas em PHP pousados num computador algures, ligado à internet 24 horas por dia e que envia a conta ao final do mês. Com o tal Reverse IP Domain Check pude ver que outros sites ocupam o mesmo servidor que os meus, o que resultou num retrato muito fiel da web portuguesa (com alguns sites espanhóis à mistura).

E esse retrato não é bonito.

“Em construção”. “Brevemente”. “Coming soon”. São as frases que mais se repetem. Sites eternamente nesse limbo, “Em construção” com o GIF animado do trabalhador que cava, “Brevemente” em Comic Sans, “Coming Soon”, “last update June 2001”. São os nados-mortos, o domínio e a conta de alojamento talvez continuem a ser pagos por uma vaga esperança de uma conclusão. Depois há os mortos-mortos: última actualização em Outubro de 2002. Weblogs que deixaram de ser actualizados quando o velho Cafeína ainda tinha artigos novos quase todos os dias. São sites onde faltam imagens, links para lado nenhum, onde a primeira página inocentemente anuncia um endereço do Hotmail para vendedor de Vlagra e R0lex recordar, onde um script nove anos desactualizado produz erros de servidor. Aqui não há esperança, apenas a certeza de que as contas são pagas por alguém que nada tem a ver com o assunto.

Existem imensos webdesigners que anunciam os seus serviços. Invejo os que não necessitam de nada mais que um cartão com o telefone e o mail - isso de actualizar portfólios é coisa de quem não tem trabalho.

Há os sites feios. Recordações dos anos 90, contadores de visitas a imitar um conta-quilómetros, 122 visitantes desde 1998. Listas por pontos em Times New Roman tamanho 36, azul cor de link, que explicam as vantagens do senhor mediador de seguros, ou um incompleto catálogo de tubos de escape, letras gordas e um logótipo giratório, GIF mal animado, site produzido há sete anos atrás por um qualquer sobrinho ou afilhado com problemas de acne a troco de mais rebuçados - a mais feroz concorrência do designer português.

Temos as introduções, apresentações em Flash, muito discreto botão de ‘skip’ no fundo da página. Umas letras voam por ali, uns bitmaps fazem um zoom e distorcem-se estilo um mau videoclip techno de 1993, e no final é nos dada a escolha, repetir a apresentação ou entrar no site onde afinal nós ainda não tínhamos entrado.

E repetimos a apresentação, já que o site está “em construção”



12.08.2008

Eduardo Morais

#15 · Com. ?

Metam-se na vossa vida!

Ando eu pela rua na minha vidinha, máquina fotográfica dentro do saco a tira-colo, quando vejo uma parede com cartazes rasgados que cumpre uma qualquer coisa estética de que gosto. Ou era um puxador de uma porta, ou o arranjo das linhas pintadas no pavimento. Instintivamente saco da máquina fotográfica e preparo-me para tirar uma fotografia.

De repente sinto uma presença maligna nas minhas costas. “Oh não”, penso. Relutantemente viro a cabeça e lá está ele: Um Velho, parado, mãos nos bolsos, olhando-me com um sorriso nojento e até algo pervertido, sonoras as engrenagens do seu pensamento: “Olha-me este paneleiro, não percebe um caralho de fotografia. Porque é que não vai ali fotografar o coreto, aquilo é que é bonito?”.

Tiro a fotografia e vou embora, passo apressado. Desta vez evitei qualquer forma de diálogo. Tive sorte. Se há característica verdadeiramente odiosa no povo português é o modo como o pudor e a bisbilhotice andam do avesso. Não se mete na sua vida. Quantas lições de fotografia já não tive, dadas por especialistas instantâneos na matéria? Devia era fotografar o que é ‘bonito’, os Clérigos, umas flores não sei onde, a Câmara, o Estádio do Dragão. Sâo os famosos bitaites, aqueles que me dão vontade de responder com uns bufardos. Qualquer coisa serve. Posso estar a mudar o pneu do meu carro, fazendo-o da forma expedita de quem sabe o que está a fazer, que haverá sempre alguém a parar para me dar uma dica. O Português anda pela rua, micando que nem um guia governamental norte-coreano.

Nada se compara ao Pesadelo que é andar com uma câmara de vídeo pela rua. Já não bastam os parvalhões que começam a caminhar em slow-motion, bigode farfalhudo e ‘raybantes’ à carapau de corrida atravessando-se à frente daquilo que eu queria filmar (não admira que gostem tanto do ‘Animal’, no fundo todo o Português o tem dentro de si). Há aquelas pessoas que têm que, a todo o custo, fazer o seu tempo de antena. Como a ‘Tia’ cara-de-hipopótamo que nos apareceu o outro dia:

- Vocês são da SIC?
- Não, minha senhora.
- Ah. Mas vocês deviam era estar a filmar aquilo.

“Aquilo, o quê?”, pensei.

- Aquilo ali é uma pouca vergonha. Obrigam uma pessoa a descer o passeio. O outro dia eu deitei aquilo abaixo e nem levantei, para verem se aprendem. Aquilo é ilegal.

‘Aquilo’ era o letreiro com os pratos do dia que um café do outro lado da rua tinha à porta. O meu instinto era hostilizar a cabra com qualquer coisa do género “minha senhora, coma menos bolos que já consegue passar ali”, mas em vez disso acobardei-me:

- Pois, mas nós estamos aqui a filmar um videoclip.
- Mas vocês deviam era filmar aquilo. É uma pouca-vergonha. E depois fecha tarde. Sabe que há gente que mora aqui.

Silêncio. Olhei para os andares superiores do edifício, todos eles preenchidos com o mesmo anúncio de uma clínica de radiologia.

- Quer dizer… Aqui não, mas…

A senhora entrou em desespero, apercebendo-se que naquela zona só havia escritórios.

- Mas há gente que mora aqui perto, e isto é uma pouca vergonha. Até já mandei uma carta à SIC a pedir para virem cá filmar, por isso é que pensei…
- Pois, mas nós estamos a trabalhar.

Continuei o que estava a fazer ignorando a Tia Obesa por completo até ela se ir embora, evidentemente ressentida por nós não denunciarmos a injustiça que é uma placa com os pratos do dia de um café a ocupar 50cm de passeio. Será que tenho cara de Opinião Pública ou de Fórum TSF?



03.08.2008

Alexander Torres

#14 · 1 com.

Desenrascate yourself

Durante as aulas de Filosofia do 10º ano, a nossa professora demonstrava um modo de emprego de lenços de papel que nós, miúdos imberbes de 15 aninhos de idade, nunca tínhamos visto. Enrolava o lenço num espécie de cone, e então utilizava esse mesmo cone para proceder à limpeza das fossas nasais. Apesar de ser deveras elucidativo, não acrescentava muito à aprendizagem da Filosofia, nem ajudava muito em termos do respeito que miúdos imberbes têm por sua professora de Filosofia.
Poder-se-á chamar esta habilidade de “desenrascanço”, essa qualidade intangível tão tuga que até deu polémica no artigo homónimo do Wikipedia, entretanto desaparecido. A dita docente de Filosofia engenhosamente transformou uns centímetros quadrados de papel numa ferramenta de precisão para desentupir narinas. O português típico, aquele de bigode, indumentária imunda e executor de uma nobre profissão como Taxista ou Trolha ou Aquele Que Usufrui Do Rendimento Mínimo Porque Não Quer Fazer Um Car*lho, sabe desenrascar a rua como recipiente para as suas pontas de cigarro, papéis de lotaria sem valor e escarradelas. O condutor pimba desencanta sempre uma rampa, um passeio, uma linha amarela ou cria uma nova faixa para estacionar. O empresário é perito uma nova via de fuga ao fisco. O drogado habilmente encontra um cantinho numas ruínas ou casas desocupadas para chutar para a veia. Que povo cheios de recursos que somos! Como gostaria que esta habilidade fosse empregue para mais do que, sei lá, forrar um cone de papel com ranhetas. Éramos reis do mundo!
E agora chega, pois nas palavras sábias do conhecidíssimo filósofo grego, Eduardos de Sousos, já estou a encher chouriços.


23.07.2008

Eduardo Morais

#13 · Com. ?

Enchendo Chouriços

Cultura em Portugal. Três palavras que levam a reacções tão diferentes quanto os dez milhões de portugueses. Temos por exemplo o Tó, que fica instintivamente enjoado com a “merda dos intelectuais, paneleiros!, parasitas de merda!, ide trabalhar!” - pensou ele quando bebia uma cerveja no café da esquina, paga com o dinheiro que a Manuela, uma actriz desempregada, teve que entregar à Segurança Social. Para a Manuela, a Cultura em Portugal lembra-lhe o trabalho que não tem. Hoje, em desespero, até foi baixa o suficiente para ir ao casting para um musical do Filipe La Féria. Já ao Dr. Rui Rio a Cultura lembra os espetáculos que tem que organizar para conquistar votos onde interessa - na Foz e nos Bairros. Aquelas coisas mais maradas e/ou sérias de que a Manuela gosta que se fodam!, ela nunca iria votar nele de qualquer forma. Já para Guilherme, seu ex-namorado e actual gay e parte do elenco de um musical do La Féria, Cultura é prestígio, dinheiro, coisas bonitas e uma maneira de conhecer rapazes giros. É ser superior a pessoas como o Tó que lhe batiam na escola.

Já para mim não existe Cultura em Portugal. Há Jogos e Esquemas que envolvem a produção de muito comentário e conversa (como este artigo) e por raras vezes, a produção de alguma coisa que realmente se pode experienciar - uma peçazinha, um filmezito, uma exposiçãozeca. Muito de vez em quando, até pode ser alguma coisa decente. Mas como estes casos de verdadeiro sucesso não têm piada, vou falar da generalidade, ou seja, do Fracasso.

Em Portugal há dois tipos de Fracasso artístico. Há aqueles Fracassos muito bem disfarçados por Egos e Interesses de modo a que o Medo nos leve a considerá-los sucessos (nem o Sócrates resistiu a ter medo do Manuel de Oliveira*). Destes já falei.

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17.07.2008

Alexander Torres

#12 · Com. ?

Marados dos cornos

“Pelas barbas inexistentes de Antíoco IV Epífânio!” exclamarão os leitores. “Três dias e nem um único novo artigo do Cafeína para agradar às hostes de fiéis seguidores?!” Pois dou-vos um novo post, escrito ao longo dos últimos dias, às prestações, feito enquanto aguardo que o AutoCAD negoceie a alocação de recursos com o CPU. Ao menos tento escrever alguma coisa, ao contrário de certos filósofos ininteligíveis que não só não escrevem como se queixam sobre a alta sofisticação temática de quem escreve (sim, isso foi uma boca). Portanto vou baixar a fasquia, e veremos o que sai.

Desta vez vou tripar com os malucos. Na boa tradição cafeinesca, que se f**a o politicamente correcto e vamos dar na cabeça aos doidos varridos que nos assolam o quotidiano. Começaremos com os mais calmos e progrediremos até aos mais perigosos.

Há os tolinhos inofensivos que nos falam sem mais nem menos, deixando-nos sem resposta e sem saber se devemos rir e ir embora, e sentirmo-nos uns cabrões por sermos tão intolerantes de quem tem uma doença, ou se metemos conversa e aí corremos o risco de termos o doido à perna por muito tempo.

Existem os chanfrados que exibem sinais menos evidentes, mas quando mostram os sinais, catano, não há margem para dúvidas. Há uns anos queria subir à Torre dos Clérigos, que estava em obras, e o tipo que estava a vender bilhetes disse qualquer coisa como “Ora, acontece que, de momento, a Torre está em obras, sendo que é impossível visitar a Torre, pois as obras não permitem visitas, portanto, se vier e já não houver obras, já poderá subir, mas, sendo o caso de que realmente está a haver obras, não serão possíveis visitas até futura data após o término das obras, aí sim, será possível realizar visitas à Torre, mas até lá, não será possível, pois está interdito por motivo de obras, blá-blá-blá blá-blá-blá blá-blá-blá(…)”

Temos os pedintes, uma estirpe de malucos mais agressivos, como a Deolindinha que anda pela Baixa portuense, faz anos todos os dias (já deve ter uns 2000 anos) e é orfã (aos 2000 anos, ou aos 40 e tal, como quiserem). A Deolindinha é capaz de engendrar os insultos mais criativos, do tipo que fazem marinheiros corar, se nos recusarmos a “dar uma moedinha”. Depois temos o maluquinho de cabelo branco e cabeça deformada que também anda pela Baixa. No Euro 2004, pedia timidamente se “empresta um euro para uma sopa”. Agora já nada teme e pede logo dois euros, como fazem os pedintes lisboetas, a alto e bom som. Existe o doido da zona do Marquês/Costa Cabral, que anda sozinho pela rua, mas a mandar vir com pessoas invisíveis. E se alguém se meter no caminho, é abalroado.

E por fim, os chanfrados doidos malucos sociopatas, mas, por alguma razão para mim insondável, socialmente aceites, como taxistas e estafetas, empregados de mesa beligerantes, condutores de Seats e Audis, políticos e comentadores televisivos. São estes psicopatas infelizes que mais gostaríamos de ver num colete de forças a espumarem dos cantos da boca enquanto lhes é administrado terapia de choques eléctricos.



13.07.2008

Alexander Torres

#11 · 3 coms.

Os Três Grandes

“Catano!” dirão os leitores. “Nem um mês de Cafeína renovado, e já estão a falar desse desporto de neandertais que é o futebol!” Mas não. Este título não faz referência ao trio de clubes que dominam o panorama futebolístico nacional. O assunto hoje é algo por qual nutro grande paixão, mas que os (pouquíssimos) leitores do meu outro blog devem estar fartos até aos cabelos. Lamento. Continuo a sonhar que poderei um dia fazer um artigo que todos apreciem ler. O assunto? Carros. Os três grandes? Audi, BMW e Mercedes, os três maiores fabricantes de carros de luxo, que também são alemães.

“Mas porque carga e recarga de água está este gajo a falar disto?” perguntarão. Eu digo. Saiam à rua. Dêem uma volta ao quarteirão, e contem quantos veículos destas marcas vêem estacionados ou a circular. Estas são marcas de luxo, logo, devem ser carros caros. Mas as estradas portuguesas estão verdadeiramente inundadas por estes automóveis, o que é de indagar como é possível, visto que ao ver o telejornal só ouvimos falar em “crise económica” , “crise no sector” e outras frases-feitas jornalísticas que dão ideia que o país está à beira da hecatombe socio-económica. E eu não duvido que Portugal esteja numa situação complicada, o que me surpreende é que o mercado automóvel está de vento em popa. Vendem-se carros novos que é uma coisa doida, e são cada vez mais os importados em segunda mão a circular. Só isto já é digno de um artigo em si, mas hoje vou concentrar-me noutra coisa.

Há uma preponderância da malta comprar carros alemães, dos tais “três grandes” (a Volkswagen é alemã, mas não é marca de luxo, por isso não a incluo). Se perguntarem a razão da escolha, os donos dirão “duram muito” ou “são bem construídos”, mas não dirão que a verdadeira razão, que eles possam saber consciente ou inconscientemente, é o status que dá.

“Qual é o teu carro?” pergunta o grunho ao azeiteiro. “Ah, é um Bê-Eme!” responde este, com um sorrisinho enquanto enche o peito. A verdade é que nos encontros de homens de pelo no peito, gel no cabelo e ouro no dedo, não dá um ar de importante responder que conduz um Clio quando se pode dizer que se tem um classe C. E quem conduz um Audi está claramente a dizer “Eu sou rico e desprovido de bom-gosto o suficiente para ter comprado isto em vez de um Seat para fazer as minhas estupidezas na estrada.”

Digo-o com toda a lógica e razão do meu lado: quem tem um destes carros é um guna endinheirado ou pimba ou azeiteiro ou novo rico, ou pior, taxista. Compraram-no para dar pasta e provar uma masculinidade mal-confirmada, para dar nas vistas, para exibir um status social que não têm.



11.07.2008

Eduardo Morais

#10 · 1 com.

Passwords

”- Amigo, você vai para casa?”
”- Amigo, não vamos todos para casa?”

Estas são, a acreditar na introdução do mais recente livro de Douglas Coupland, The Gum Thief, uma senha e contra-senha em tempos utilizadas por membros da Maçonaria para se identificarem entre estranhos. Não consigo ainda compreender se serei ingénuo, se serei paranóico - provavelmente estarei em simultâneo no limiar de ambos os estados - mas ultimamente tenho-me apercebido do modo como o espaço alargado do cinema português* parece funcionar num registo de senhas e contra-senhas.

Falo em ‘espaço alargado’ porque é evidente que o ‘cinema português’ é um mundo muito mais vasto do que o conjunto de pessoas que realmente querem fazer ou trabalhar em filmes em Portugal. É que muitas das pessoas que neste país fazem filmes não os querem realmente fazer. Daí as pequenas catástrofes que é possível ver nos festivais de cinema, como por exemplo uma abominação de 25 minutos chamada “Fevereiro”**, de Francisco Botelho, a que alguns dos membros do Cafeína foram sujeitos em Vila do Conde na passada quarta-feira. Acredito sinceramente que há dois tipos de pessoas que fazem filmes em Portugal: as que querem fazer filmes, e as que querem simplesmente Aparecer. Ou seja, ou é pelo Trabalho, ou é pelo Ego. E por muita falta de jeito que haja, por pior que seja o resultado final, há coisas que são simplesmente impossíveis quando estamos nisto pelo Trabalho e existe Gosto no que fazemos. Neste caso, a incompetência era total na fotografia - aquilo a que chamo a “noite portuguesa” merecia um texto por si só -, na montagem, na direcção de actores - sei que a Ana Moreira é uma excelente actriz e até me senti de algum modo envergonhado por estar a ver o filme - e sobretudo no texto e no conceito - como disse o meu amigo Henrique “a apatia está aí, por todo o lado”, não é preciso querer ilustrar isto com uma historieta de alguém que se decide suicidar para fugir à polícia depois de ter roubado um automóvel - acreditem que é verdade.

Mas o que tem isto a ver com a história das senhas e contra-senhas?

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10.07.2008

Alexander Torres

#9 · 1 com.

Português Moderno

No curto espaço de tempo de existência deste novo Cafeína, temos tido a contribuição de alguém aparentemente muito preocupado com o nível de correcção dos textos apresentados. Não sei se “H” e “Anónimo” são a mesma pessoa, mas partilho do seu gosto de ver ortografia, sintaxe e gramática devidamente apresentados. Acrescento que os meus contributos não têm estado isento de autênticas bacoradas, mas, nestes anos de escrever artigos publicados em blogs, verifico que, por mais cuidado que se tenha, escapam-nos sempre umas gralhas que nem o corrector ortográfico do browser são capazes de identificar. Por outro lado, fico feliz que os nossos artigos sejam desprovidos de maneirismos de escrita que considero anátema ao bom gosto, bom senso e boa comunicação como “ele dixe k cmg n s paxava nda”, ou puros e simples pontapés no português como “susseção”, “encomondar as peçoas”, e outras jóias do quase-analfabetismo que reinam em mundos como os fóruns de internet relacionados com o futebol. Por isso agradeço os reparos do(a) nosso(a) leitor(a) desconhecido(a), e, aqui no Cafeína, continuaremos a esforçar-nos por fazer deste canto da net um bastião de bom português.

Mas o que é bom português? Decerto este ensaio já vem tarde, visto que a notícia do acordo ortográfico de português já não é novidade, mas sou da opinião que nós no Cafeína devemos opinar sobre esta matéria. Deixem-me só começar o assunto com um pequeno caveat: eu sou absolutamente contra este acordo, tanto pelo seu princípio como pelo seu conteúdo. Há inglês britânico, inglês americano, inglês australiano e por aí fora, mas nem por isso há qualquer acordo ortográfico (antes pelo contrário, houve um esforço inicial dos americanos para distinguir a ortografia americana da britânica) mas a malta continua a entender-se perfeitamente. Aliás, como natural de Londres, sou mais capaz de entender um americano do que alguém de Newcastle.

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09.07.2008

Alexander Torres

#8 · 9 coms.

Mos Maiorum*

Em 31 a.C., Caio Júlio César Octaviano, com a ajuda imprescindível do seu hábil general, Agrippa, derrotou o seu colega de triunvirato Marco António e a monarca egípcia, Cleópatra VII, na Batalha de Áccio, pondo fim a uma guerra civil que se arrastara anos. Após 50 anos turbulentos, onde a res publica Romana viu a ascensão e queda de ditadores e triunviratos que subverteram e monopolizaram o poder, aguardava-se um regresso aos dias mais calmos da antiga República. E, para a maioria, foi isso que aparentemente sucedeu. Dois cônsules eram eleitos anualmente, o Senado reunia e decretava concelhos que se transformavam em lei, os barcos de trigo continuavam a atracar em Óstia para alimentar a plebe urbana de Roma, e, o mais importante, pôs-se fim a um ciclo de guerras civis que eclodiam desde o tempo de Mário e Sulla.

Mas havia uma grande diferença nesta nova encarnação do Governo do Império: a existência de um princeps civitas, o principal cidadão, na pessoa de Caio Júlio César Octaviano, que viria pouco depois a ser chamado, por decreto do Senado, Imperator César Augusto, conhecido por nós apenas como Augusto, o primeiro Imperador Romano. Na qualidade de primeiro cidadão, Augusto não dispunha de qualquer poder legislativo extraordinário como se poderia esperar quando pensamos em imperadores, exceptuando um comando fulcral: era chefe da quase totalidade do exército romano. Augusto exercia aquilo que em latim se designa auctoritas, que, apesar da sua semelhança com a palavra “autoridade”, é imbuído de um sentido sem paralelo em português. Exprime dignidade pessoal, carisma, feitos passados, capacidade de comando e mais. Através da sua auctoritas, Augusto tinha apenas de sugerir o que quisesse, e aqueles à sua volta tratavam de por em prática o que quer que isto fosse. “Ah, sabem o que era porreiro? Era aquele tipo ser cônsul.” Pumba, lá o tipo que Augusto propunha para cônsul era magicamente eleito.

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08.07.2008

Alexander Torres

#7 · Com. ?

Pássaro Imortal

Aqui no Cafeína, orgulhamo-nos da nossa polimatia, quais Da Vincis do Século XXI! Estamos aqui para privilegiar as massas com o nosso conhecimento vasto e variado!

Falando agora de forma menos jocosa, a diversidade deste espaço, na minha modesta opinião, sempre foi um ponto a seu favor, e gostaria de criar o hábito de dedicar alguns artigos a partilhar com os leitores alguns pensamentos soltos sobre assuntos de qual não sou perito, mas que acho suficientemente interessantes para deixar aqui como matéria de reflexão e até de debate.
E sem querer parecer presunçoso, quero também elucidar assuntos provavelmente pouco atraentes para o leitor casual. Talvez, neste e em futuros artigos, consiga estimular a vossa atenção para coisas que vos possa parecer chatas ou estúpidas. Mas avancemos para aquilo que vos proponho agora para ler.

Hoje em dia, a subida dos preços do combustível atinge quase todo o mundo dito “civilizado”, e um dos sectores mais afectados é da indústria das transportadoras aéreas. Os aviões são grandes, caros e mamam combustível como se não houvesse amanhã. Mas não tenhamos pena dos gajos: se os aviões se tivessem desenvolvido como os carros desde os anos 50, não tínhamos os sorvedouros voadores poluentes que nos enchem os céus actualmente. Os melhores e maiores avanços feitos na aeronáutica contam com cerca de cinquenta anos de existência, e poucos exemplos serão mais ilustrativos do que os feitos, até agora inigualados, do incrível Lockheed SR-71, o lendário “Pássaro Negro”.

Passado apenas pouco mais do que uma década após o fim da 2ª Guerra Mundial (e o consequente advento de aviões militares a jacto), começar-se-ia a concepção e construção daquilo que seria o aparelho voador a jacto mais veloz construído até hoje. Mas primeiro, vamos enquadrar um pouco mais este avanço.

O avião de reconhecimento americano Lockheed U-2 conseguia voar tão alto que se pensava ser inatingível por qualquer arma, seja míssil ou bala.

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Entre Agosto de 2000 e o seu encerramento em Julho de 2005 o Cafeína foi um dos mais populares weblogs portugueses.

Podes consultar todos os artigos aqui colocados durante essa época.

Por data:

Por membro do staff:






Houve um momento em que experimentámos publicar uma fanzine, fotocopiada como deve ser.

Podem fazer o download de versões PDF (que não fazem justiça à xunguice da impressão):

Número Zero
Agosto de 2001

Desespero Celular;
Menos Bófia;
O Engate do Lado.

Número 1
Início de 2002

Não me Grite!
O Automóvel é uma Droga;
Nós Pimba!

Número 2
Final de 2002

Porrada;
Notícias Lá de Cima;
Dupla Personalidade






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Todos os artigos são da inteira responsabilidade dos respectivos autores.
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